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O Bonde

by Gabriel Vieira
Seis rapazes suburbanos cruzam uma cidade partida por um lugar ao sol

Pai e filho lavam um Siena vermelho sob o sol impiedoso do subúrbio carioca quando um ônibus encosta ao lado. "Aí, moleque, esse cara é um viadão! Adora chupar um pau, já sentou muito no meu colo!", berra Marco Otávio, o motorista, enxugando o suor da testa com um paninho bordado de pequenos corações. Os três dão risada, trocam saudações afetuosas e o carro B42563 da linha 457 deixa a rua Carlos de Oliveira, no bairro da Abolição, zona Norte do Rio, rumo à Praça General Osório, em Ipanema, um dos principais endereços da classe alta da cidade. As duas primeiras senhoras a girarem a catraca carregam bíblias debaixo dos braços com um semblante de reprovação. Enquanto elas seguem o caminho da igreja naquela manhã de domingo, a esmagadora maioria dos 115 passageiros que lotariam aquele veículo busca um destino um pouco mais profano: a praia.

A parte traseira é logo ocupada por seis rapazes. Três se jogam no último e maior banco. Os outros se espalham ao redor, escancarando as janelas para os necessários ventos da Avenida Dom Helder Câmara – antes chamada de Suburbana, a via, em seus 11 km, corta 11 bairros da zona Norte. Roberto* abre a mochila, saca uma garrafa de dois litros de Coca-Cola e anuncia: "Ainda tá geladinha! Vou abrir". É imediatamente recriminado. "Tá maluco? Isso é pra praia. Guarda essa merda." Ele resmunga baixinho e se dá por vencido, baixando os olhos para coçar a barriga que se acomoda protuberante sobre a bermuda de flores multicoloridas.

Beto é negro e tem 20 e poucos anos, assim como a turma do último banco: Leonardo, Gelson e Maykon. Melhor dizendo, de acordo com os próprios, respectivamente: Peixe, Barata e Fom. Do outro lado, está Paulo Junior, o Juninho, observando as ruas com um ar triunfal sob óculos azuis espelhados, ocasionalmente corrigindo os rumos de seus cabelos tingidos de amarelo. O único branco do grupo é o caçula Gabriel, sentado à frente, conhecido como "Playboy" exatamente por questões estéticas. Eles se encontraram meia hora antes em um bar da Rua Amália, em Quintino, onde cumprimentaram senhores que bebiam a sagrada cervejinha das nove da manhã. Um deles é tio do Barata. Compraram a Coca por quatro reais, metade do preço praticado em Ipanema.

Milhares de pessoas lutam por um minifúndio de areia nos 3700 metros da orla de Ipanema e Leblon, na zona Sul, a cada domingo de verão (ou, fora da estação das temperaturas escaldantes, em qualquer dia comos termômetros acima dos 30 graus). Entre as pedras do Arpoador e o Morro Dois Irmãos reside o imaginário do Rio de Janeiro batizado de Cidade Maravilhosa, com letra de Vinícius de Moraes, música de Tom Jobim e tramas do novelista Manoel Carlos. Claro que tanto status tem um preço. Leblon e Ipanema ostentam os metros quadrados mais caros do Brasil: R$24.142 e R$21.956 no último ano, respectivamente.

Basta o sol chegar mais forte e a bossa nova da elite tupiniquim é invadida pelo funk pancadão dos subúrbios, periferias e baixadas, loucos por um banho de mar. Eles chegam de metrô, cujas duas linhas (Pavuna e Tijuca) desembocam na Praça General Osório, coração de Ipanema. Mas chegam principalmente de ônibus, meio de transporte público mais popular do Rio. O 474 traz o povão do Jacaré, 484 e 485 chegam da Penha e de Olaria, o 457 parte da Abolição a cada cinco minutos, carregando até 130 pessoas por viagem.

“O transporte público não chega a fazer o milagre de superar os códigos sociais, mas cumpre um importante papel de agente da dessegregação. O ônibus leva as pessoas para longe de suas vizinhanças, distribui, vai de um extremo a outro. Essa produção de heterogeneidade é fundamental", defende Janice Caiafa, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), enquanto ajeita a bolsa estampada com o mapa do metrô de Nova Iorque. Há quem discorde. Associações comerciais e de moradores de Ipanema já tentaram frear a profusão de pontos finais no bairro. Movimento semelhante ao dos abastados habitantes do bairro paulistano de Higienópolis, que em 2011 lutaram contra a chegada do metrô e da subsequente "gente diferenciada" de seus vagões.

O último dos 60 acentos disponíveis no 457 foi ocupado por uma menina de penteado afro, blusinha branca com a Marylin Monroe de Andy Warhol e shorts jeans. O namorado, primeiro a sobrar na velada guerra das cadeiras do transporte de massa, precisa segurar firme enquanto o ônibus segue aos solavancos rumo ao Meier pelas ruas do Cachambi. Ele passa seus fones de ouvido por baixo da camisa do Chicago Bulls e discretamente observa a algazarra dos meninos da Rua Amália.

"Hoje o Fom perde o cabaço! Vamos passar na VM na volta!", avisa Barata, em referência à Vila Mimosa, emblemático centro de prostituição na zona Norte da cidade. Os outros aprovam com entusiasmo. Fom tenta se defender: "Sai daí, tu não come ninguém! Vive andando de moto com homem na garupa pra lá e pra cá". Não cola. Sua virgindade segue sendo o assunto da vez e até um senhor de barba grisalha com uma menina no colo deixa escapar umas risadas. Fom carrega o apelido por uma suposta (e improcedente, diga-se) semelhança com o falecido comediante Jorge Lafond. Também é chamado de Chokito, graças às inúmeras espinhas no rosto.

Uma batida acompanhada de um "tchu-tchatcha-tchutchu-tcha" toma conta de repente. "Vai, vai, levanta a mão! Somente quem é putão!", ordena o funk escolhido por Playboy, referência musical do grupo. Com um extenso repertório do gênero "proibidão" em seus arquivos, o moleque de 17 anos é um DJ em ascensão nas festas de Quintino e adjacências. A faixa seguinte repete algo sobre "boceta de novinha", gerando alguns olhares tortos. Nenhum pedido de silêncio, no entanto. Juninho aprova a trilha, fazendo uma dancinha com os ombros: "Não conheço essa, me manda no bluetooth!"

Peixe pede licença para tocar uma música do seu smartphone: "Telegrama", um antigo sucesso do Exaltasamba, que torna o ambiente um pouco menos barulhento. O ônibus já está completamente lotado quando uma moça consegue superar o trecho de maior aglomeração, a parte central do veículo. Ela é muito branca, salpicada de pintas vermelhas por todo o corpo. Seu traje não sugere uma visita à praia: blusa branca, bermuda preta, longas meias listradas e um All Star de cano alto. Os cabelos loiros jogados sobre os ombros tornam-se gradativamente azuis até chegar a um cordão com pingente de caveira. Barata a examina minuciosamente até sentenciar baixinho: "Feião...". É nesta convivência que o ônibus cumpre seu papel social, defende a professora Janice. "O transporte público permite que estranhos se encontrem, que desconhecidos se reúnam. Aí reside a força das grandes cidades."

Marco Otávio coleciona interlocutores por minuto. "Sai da frente, seu cuzão!", berra pela janela, quase encostando na traseira de um taxista na Avenida Maracanã. "Bom dia, minha senhora!", exibe os dentes tortos para a velhinha magérrima que sobe os degraus com sacrifício. "Alguém cede espaço pra dona sentar!", comanda os passageiros amontoados entre a porta dianteira e a roleta. "Pode ir?", pergunta ao cobrador, que sinaliza positivamente com uma batida dupla de moeda numa barra de ferro. Ele arranca com violência. Alguém protesta com um palavrão.

"Em dias de calor assim, tem de tudo. Nego bota a cabeça pra fora, quebra vidro, assalta, faz tudo que não pode", lamenta o motorista, empapado de suor, aproveitando mais um sinal fechado para jogar os cabelos grisalhos para trás. Quando há prejuízo financeiro para a empresa, é preciso preencher formulários e testemunhos para não pagar do próprio bolso. Ele diz fazer o máximo para não deixar o estresse da profissão lhe abater. "Às vezes é uma galera zoando na paz, uma batucada boa. Quando é assim, eu entro na onda. 'Se o trocador for vigarista, eu vou botar no cu do motorista!'", canta, às gargalhadas.

Juninho e Barata avistam um grupo de torcedores do Cruzeiro na rua e provocam erguendo os dedos médios: "Vai pra casa, otário! Vai dar Mengão nessa porra!" Fom se junta ao coro, mostrando o escudo do Flamengo em sua camisa azul de goleiro. "Eu iria ao jogo se não fosse tão caro. Quarenta reais é sacanagem. Fico só no sofá", esbraveja. Os rivais deste domingo viram o rosto sem responder, para satisfação de Barata. "Quem manda aqui no Rio tem que ser a gente. Vai ver um jogo lá pra você ver como o bicho pega." Os outros concordam. Todos os seis são flamenguistas.

A Praia do Arpoador, marco zero dos territórios ipanemenses, é uma esplendorosa aquarela de cores, sons e gente. Um peruano vendedor de artesanatos conta ao freguês que veio para a Copa do Mundo e esqueceu de voltar, namorados bronzeados trocam beijos e se sujam de sorvete, uma ambulância socorre uma senhora quase afogada que apresenta quadro de hipotermia, empresários experimentam um bobó de camarão por R$210 no restaurante do hotel, ciclistas pedalam, crianças correm, idosos observam. Vende-se água, mate, cerveja, picolé e tudo mais que possa aliviar o calor de 36°C.

Quatro policiais fazem revistas na saída do Parque Garota de Ipanema. Eles escolhem algumas pessoas para terem os bolsos apalpados, abrirem as pernas, mostrarem o que há dentro das bolsas e mochilas. Todos os eleitos são negros ou mulatos. Nenhuma apreensão até o momento. "Sou gente boa, moço, tá tranquilo", sorri um rapaz com as mãos espalmadas contra o muro. É liberado com um tapinha nas costas: "Eu sei, eu sei". Os agentes fazem parte da Operação Verão, que destacou 650 homens de diversos batalhões da Polícia Militar para aumentar a segurança das praias da Zona Sul. Uma resposta aos arrastões que voltaram a ser notícia nos fins de semana anteriores.

Foi exatamente ali, no Arpoador, que o corre-corre generalizado permeado por roubos e gritaria tornou-se um símbolo da violência e da tensão social carioca. O jornal O Globo anunciava que 1992 se iniciaria com "o verão dos arrastões". Nas rádios, Fernanda Abreu cantava a cidade como "purgatório da beleza e do caos" no hit "Rio, 40 graus" - uma releitura do filme de Nelson Pereira dos Santos, que quatro décadas antes retratara meninos da favela nas areias de Copacabana. Em agosto de 1993, um grupo de extermínio da Polícia vitimaria 21 moradores de Vigário Geral. No ano seguinte, o ainda mortal Zuenir Ventura retrataria este caldeirão no livro "Cidade Partida", delineando paralelos entre Vigário e Ipanema, definindo o conceito de um muro invisível dividindo a capital fluminense, tomando chacinas e arrastões como personagens.

Peixe mexe os lábios com desdém ao afirmar que não se importa com as abordagens da Polícia. "Às vezes bate neurose neles e querem revistar a gente. Ainda mais porque a gente é moreno. Mas nem ligo, não tenho nada pra esconder", afirma, coçando o cavanhaque. "Pra nós até que é tranquilo. A gente não é do morro, a gente é da pista." Com 26 anos, ele é o mais velho do grupo, o único que não mora mais com os pais. Deixou a Rua Amália para viver com Daniela, que não é sua esposa, "mas é como se fosse". O nome do filho está tatuado no antebraço esquerdo. Henrique Lucas, 17.01.2014.

Quando é perguntado sobre sua relação com a polícia, Barata explode: "Tu já tá querendo saber demais, perguntando da vida pessoal dos outros. Se esses otários falam, vai lá, mas me deixa quieto". Sua constante postura séria e defensiva - em contraste com a descontraída camiseta de bloco de carnaval e shorts verdes de jogar futebol - impedem que o rompante seja visto com qualquer surpresa. Pelo contrário, os amigos viram os olhos impacientes. Beto ergue a voz: "Porra, Barata, do jeito que tu fala parece até que tu é bandido. Quer dar uma de marginal? Tu trabalha no lava-jato, cara". Segue-se mais uma discussão, até o próprio Beto discursar conciliatório. "Ele é assim mesmo, desconfiado. Mas a gente gosta dele mesmo assim, todo mundo aqui é muito amigo. Aqui é o Bonde do Barata. Mexeu com um, mexeu com todos. Tipo Os Mosqueteiros." Barata não consegue disfarçar um sorriso discreto, voltando a atenção para a janela enquanto a luz do dia é engolida pelo Túnel Santa Bárbara, que liga os bairros do Rio Comprido e Laranjeiras.

A primeira parada do 457 na zona Sul do Rio de Janeiro é no bairro das Laranjeiras, em frente à sede do Fluminense Football Club. Juninho não parece interessado no rival dos gramados, mas no casal que passeia rente ao muro grená. "Show de bola, hein?!", grita para a moça, que desfila um confortável modelito verão de top e saia curta. Eles fingem não ouvir e seguem em frente. Juninho não desiste, tampouco se intimida com os braços avantajados do sujeito que segura a mão de seu alvo. Vai ver são gringos. "Show de buela!", arrisca. Nada.

"Pros lados de cá é mais difícil pegar mulher, só de vez em quando. Mas lá na minha área eu sou rei", se gaba Juninho, também conhecido como "Peixonauta", graças a um desenho animado brasileiro transmitido pela Discovery Kids. Com seus grandes óculos azuis refletindo a paisagem dominical e o ônibus lotado, ele fala pouco, parando sempre que possível para elogiar a forma física de alguma pedestre. Seu sorriso é malandro, malicioso, carioca. É o responsável por carregar o pequeno embrulho de maconha.

"Todo mundo gosta de fumar um, meu irmão. Outro dia umas coroas lá de Ipanema fumaram com a gente, elas tinham um baseado enorme", conta Juninho, que tradicionalmente passa a maior parte dos domingos praianos dividindo um "cigarrinho do capeta" com o amigo Playboy nas pedras do Arpoador. O problema é quando a Polícia surpreende o grupo. Da última vez, precisaram "colaborar" com R$50 para não irem à delegacia. Beto defende a legalização. "Cara, maconha é erva. Não faz mal, só faz bem à saúde". "Aí também não", corta Peixe. "Faz mal, sim. Come o seu cérebro bem lentamente". Os outros ameaçam protestar, mas o mais velho não cede: "Eu estudo, eu leio. Vocês, não". Resignados, se calam.

Uma hora e vinte minutos depois de deixar a Abolição, o B42563 enfim chega ao ponto final da linha 457. Praça General Osório. Vários passageiros já haviam descido ao longo da praia de Copacabana, mas ainda assim a fila para descer do veículo é extensa. O “Bonde do Barata” sai por último e, sem perder tempo, segue o caminho do mar. Mais alguns minutos pelo calçadão, buscando o Arpoador de costas para o Dois Irmãos. Risadas para um turista barbudo incrivelmente vermelho, cantadas para as meninas que passam por todos os lados.

Eles dispensam cadeiras e barracas, jogando seus pertences e os próprios corpos na areia quente. Juninho e Playboy vão imediatamente às pedras. Barata permanece sentado, resmungando sobre a postura infantil de Fom e Beto, que brincam de chutar água um no outro. Peixe se levanta, se livra da camisa e deixa suas pegadas até a beira do oceano. Ele se detém com as canelas submersas, digerindo em silêncio a ruidosa alegria da orla: ondas, crianças, famílias, playboys, farofeiros, ambulantes, surfistas, namorados, amigos. Ajeita pela última vez os cordões da bermuda, toma fôlego e some na multidão, encharcando cada uma de suas células no gelado mar de Ipanema.

 

*Os jovens pediram para não terem seus sobrenomes divulgados.