Velozes, furiosos e preciosos

by Erick Rianelli
O dia a dia dos motoqueiros da TV Globo, que se arriscam na selva do trânsito carioca para resgatar imagens e ajudara colocar o jornal no ar

Seis e meia de um domingo de céu claro e clima ameno no Jardim Botânico, zona Sul do Rio de Janeiro. Venta e o barulho na Rua Von Martius é baixo, vem de um grupo de oito motoqueiros que conversam animados. Todos usam roupas de proteção e têm seus capacetes nas mãos. Após alguns minutos de conversa descontraída, os celulares dos homens começam a tocar e a roda se desfaz. Eles andam alguns metros e sobem nas motos, saindo em disparada. A ordem para a partida veio do interior do prédio em frente ao estacionamento das motos, onde fica a sede do jornalismo da TV Globo. Aquele não era um dia qualquer: era o dia de votação do primeiro turno das eleições estaduais e federais de 2014.

De dentro da redação da Editoria Rio, na sala da apuração, o chefe de reportagem André Szapiro dá as coordenadas aos motoqueiros. Musculoso e com 1,80m de altura, Szapiro é um homem de poucas palavras, ele reclama da demora dos motoqueiros em sair, e decide passar um rádio para cada um deles. Os motoqueiros, ou motocas, como são chamados, vão ficar ao lado das oito equipes de reportagem espalhadas pela Região Metropolitana, ocupadas com a cobertura do pleito. Os motoqueiros, nesse caso, são um stand-by: todas as equipes estão acompanhadas de vans geradoras de sinal via satélite. Essas vans possibilitam que os repórteres entrem ao vivo em rede nacional de qualquer lugar com vista para o céu – e eles vão fazer isso durante os intervalos comerciais com informações sobre o andamento da votação. Caso as geradoras apresentem falhas, os flashes - boletins de notícias com no máximo 30 segundos de duração - são gravados em discos e levados até a redação pelos motoqueiros em um prazo curto. Segundo Szapiro, curtíssimo: “Tem que chegar aqui em no máximo 30minutos, não importa onde esteja. É como uma pizza, não pode demorar e tem que chegar ainda quente”.

No domingo da votação, 5 de outubro, três das oito geradoras apresentam falhas e por isso não conseguem comunicação com a emissora. Depois de uma conversa aos berros com um coordenador da engenharia da emissora, Szapiro descobre que os equipamentos não voltarão a funcionar. Irritado, ele bate o telefone no gancho com força e pede à assistente administrativa, Irys Franklin, que apresse os motoqueiros, que agora precisarão levar os discos das equipes sem capacidade de transmissão até as vans geradoras que funcionam. Desses pontos, o material pode ser gerado para a emissora e então transmitido. Apesar dos sustos, tudo transcorre bem ao longo do dia de votações - todos os flashes previstos vão ao ar.

Leonardo César, de 28 anos, reclama do cansaço depois do turno de eleições, em que se deslocou entre Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense, e Campo Grande, bairro da zona Oeste do Rio. Ao todo, foram quatro idas e quatro voltas, em mais de 250 km rodados. Seus olhos estão vermelhos e inchados, e as palmas das mãos encontram-se secas e rachadas. Ele explica que “a culpa é do tempo seco” e que vai passar hidratante ao chegar em casa .Leonardo é motoqueiro há 10 anos – período em que também foi entregador em uma farmácia e em uma pizzaria. Casado e pai de uma menina de 5 anos, Isabela, Leonardo está acima do peso. Tem 115 quilos distribuídos em 1,79 m de altura, mas diz que o sobrepeso não prejudica a agilidade que o trabalho requer. Tais características fizeram com que os colegas o apelidassem de Almôndega.

Desde 2007, Leonardo trabalha na BrasilDoc, empresa contratada pela TV Globo para prestar serviços de logística, entre eles o de motoboy. Os horários variam semanalmente, mas Léo costuma trabalhar no turno das 4h45 às 14h45. É o segundo motoqueiro a chegar na emissora. Em dias normais, 18 motoqueiros prestam serviços ao jornalismo – 12 deles para a Editoria Rio e outros seis para o canal pago Globonews. Ainda é cedo quando nos encontramos, por volta de 5 da manhã do dia 6 de outubro. Léo está tomando café com outro motoqueiro, Fabrício Oliveira. Eles começam o dia de forma bem simples, com pão, queijo, café e suco, em um desjejum comprado pelos funcionários que chegam cedo à emissora. Aquele dia não seria fácil - choveu e o trabalho foi intenso. Ao chegar à sala da apuração, Léo encontra a subchefe de reportagem da manhã, Fernanda Negreiros. Ela diz, com tom irônico, denunciado pelas sobrancelhas franzidas e sorriso no rosto, que o RJTV 1ª Edição, telejornal que começa ao meio-dia, terá equipes fazendo matérias em Saracuruna (bairro de Duque de Caixas, na Baixada Fluminense), Recreio dos Bandeirantes, Campo Grande (ambos na zona Oeste do Rio) e Jurujuba (em Niterói, cidade do Grande Rio). “Hoje vocês vão rodar só um pouquinho, meu amigo. E o jornal entra no ar mais cedo, tem que correr!”

As equipes de reportagem da manhã começam a trabalhar às 4 horas. Fazem entradas ao vivo no telejornal Bom Dia Rio, das 6h15 às 7h30 da manhã. Em seguida, estão liberadas para fazer matérias para o RJTV 1ª Edição. Quando as equipes saem dos pontos de vivo do Bom Dia para as marcações que constam nas pautas do RJ1, os motocas saem da emissora. Às 7h20 da manhã, Fernanda dá o comando: Leonardo vai para o centro de Bangu, na zona Oeste do Rio, encontrar com a equipe da repórter Anne Lotterman, que faz uma reportagem sobre a greve dos bancários. Eles costumam chegar nas marcações antes dos jornalistas, que vão de carro.

Motoqueiros conseguem, no trânsito caótico das ruas do Rio de Janeiro, ter uma velocidade maior do que carros e ônibus. Com o estímulo ao consumo e a facilitação de crédito, comprar um automóvel ficou mais fácil – ficar parado no trânsito, também. Por isso, a população gasta cada vez mais tempo nos deslocamentos entre casa e trabalho. Segundo análise da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2012, o percentual da população que gasta mais de uma hora no trânsito entre a casa e o trabalho aumentou 2,51% entre 1992 e 2012. O tempo médio de viagem entre casa e trabalho disparou, no mesmo período, de 43,6 para 47 minutos, um crescimento de 7,8%.Em nota, o Centro de Operações Rio, órgão da prefeitura que monitora o trânsito em toda a cidade, afirmou que a velocidade média na região do Centro durante o horário do rush diminuiu 23% desde 2010. Os motoqueiros da TV Globo circulam pela cidade nos horários de rush, mas não são afetados pelo tráfego intenso.

Fernanda Negreiros é jornalista há 28 anos. Quando ela começou a trabalhar, não havia celular nem internet, mas os motocas já estavam nas ruas a serviço das redações de TV. A jornalista é alta e tem voz grave e potente, por isso não passa desapercebida. Leonardo conta que ser cobrado ao telefone por Fernanda não é uma experiência muito agradável. “Ela é gente boa, mas grita muito”, sintetiza. Há dois anos como subchefe, Fernanda controla diretamente as equipes na rua por rádio, além de acompanhar os apuradores e as agências de notícia. Ela entende a importância que o trabalho dos motociclistas tem no processo de construção das reportagens de televisão. “Com o trânsito de hoje, uma equipe pode levar até duas horas para chegar na redação. Os jornais vão ao ar com ou sem matéria, por isso os motoqueiros agilizam o nosso trabalho e são fundamentais, chegam aqui na metade do tempo. Eu brinco que eles são o marca-passo de muitos editores, que só não enfartam pois os discos chegam rápido”, explica.

Não chove na zona Oeste, faz calor e o céu está limpo, sem nuvens. São 9 horas e o movimento no Calçadão de Campo Grande começa a aumentar. Leonardo explica que, independentemente do trânsito, uma viagem entre o Recreio dos Bandeirantes, na zona Oeste, e o Jardim Botânico, na zona Sul, não leva mais que 25 minutos. Entre Campo Grande, também na zona Oeste, e a sede da emissora, meia hora. Ele fala de forma pausada, já que tem língua presa. “A gente não para, vai pelo meio dos carros. É  assim com qualquer motoca, tem que levar a encomenda rápido. Sem a gente o Brasil não funciona.” Os acidentes são comuns, Léo já caiu quatro vezes. A última queda foi há um ano, depois de uma derrapagem durante um temporal na Avenida Brasil. Na queda, o motociclista quebrou e cortou o braço direito. O ferimento foi profundo, diz ele, enquanto aponta a cicatriz, que tem o mesmo formato de raio do corte de Harry Potter, personagem dos livros da britânica J.K. Rowling. O motociclista passou dois meses em casa, de licença, mas logo voltou ao trabalho. Segundo estudo do Instituto Rio Como Vamos, com base em dados do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2013 houve um aumento de 20,14% nos registros de queda de motocicletas com vítimas na cidade do Rio. Em 2012 e 2013, foram 4.062 e 4.880 registros, respectivamente.

Sorrindo, Leonardo diz que jamais conseguiria deixar a moto de lado. A primeira vez que ficou sobre duas rodas foi aos 13 anos de idade – quando juntou dinheiro vendendo pipas e recicláveis e comprou uma scooter usada como presente de Natal. A sensação de liberdade é o que o encanta na motocicleta. Minutos antes de o cinegrafista Sergio Costa e a repórter Anne Lotterman liberarem os discos, Leonardo sobe na moto, pisa na embreagem e liga o motor. Olhando para cima, com um sorriso no rosto, diz que a vibração da manete e o ronco ao acelerar o arrepiam. Ele compara carro e motocicleta: “O vento no rosto é uma experiência única, dá uma sensação de liberdade muito maior do que dirigir um carro”.

A moto utilizada por Leonardo e os outros motoqueiros que prestam serviços ao jornalismo é a Honda XRE 300 cilindradas. Custa quase 14 mil reais e tem capacidade fora de estrada, o que permite aos profissionais chegarem a lugares de difícil acesso e atravessar enchentes. Leonardo explica que o modelo é mais confortável de dirigir por ser potente e ter uma posição de direção mais alta. Outra vantagem, segundo ele, é que a XRE não é tão visada por ladrões como motos de 125 cilindradas, padrão entre motoboys. Ainda assim, a violência nas ruas preocupa a classe: dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostram que o roubo a veículos – incluindo motocicletas – cresceu 22,85% na capital quando comparados os acumulados de janeiro a agosto de 2013 e 2014. Foram 7.560 registros em 2013 e 9.288 em 2014. Leonardo já foi roubado uma vez, em julho do ano passado. Quando trafegava pela Pavuna, foi abordado por dois homens armados. Levaram a carteira, o celular e os discos que tinha acabado de resgatar. Ele explica que saiu do local correndo até encontrar um telefone público: “Liguei pra TV e disse que fui roubado, naquele dia não deu para ter matéria. Fiz o boletim de ocorrência e levei até a Globo. Ficou tudo na boa, o seguro achou minha moto”. Fernanda Negreiros lembra desse dia: “Temos duas preocupações, queremos saber como está o motoqueiro e o material. Nesse dia o material foi perdido, o Léo ficou triste depois. Eu lamento, os chefes não gostam, mas acontece. A gente vai em frente, por que amanhã pode acontecer de novo. Quando alguém se acidenta, é a mesma coisa”.

De acordo com o Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Moto-Taxistas do Estado de São Paulo (Sindimoto-SP), os motociclistas profissionais já são mais de 1 milhão de trabalhadores em todo o país. A profissão de motoboy só foi regulamentada no Brasil em 2009. Para ser motoqueiro, é preciso ser maior de 21 anos e ter carteira de motorista categoria “A” emitida há mais de 2 anos. Apesar de já prestar serviços como motoqueiro a Globo há sete anos, Leonardo diz que a rotina é muito pesada – cada turno de trabalho dura dez horas, sem horário de almoço especificado. Por lei, motoqueiros ganham adicional de 30% de periculosidade, mas Leonardo conta que o salário é curto. Ganha 2.200 reais por mês, incluindo o dinheiro do combustível e aluguel da moto, que pertence a ele, não ao empregador. Pergunto se dá para fechar o mês. Léo para, pensa e responde que não, já que a rotina diária não permite que ele faça bicos. O que salva, segundo ele, são as horas extras contratuais, que aumentam o salário em 20%. Sua esposa, Angélica, complementa a renda da família trabalhando como vendedora em uma loja de maquiagem.

No dia seguinte, acompanhamos a chegada dos discos na redação. Por volta de 9h30, os editores de texto começam a conversar com os repórteres na rua para saber o andamento das reportagens que serão exibidas no RJTV 1ª Edição. Os repórteres então escrevem os textos e mandam para a redação via e-mail. Quando os editores aprovam, eles gravam a narração e mandam todo o material pelos motoqueiros. O prazo máximo para liberação dos discos é 10h30. Quem monitora a localização dos motoqueiros é Fernanda Negreiros, a assistente administrativa, Irys Franklin, supervisionadas pelo chefe de reportagem, André Szapiro. O motoqueiro Leonardo está longe, já que foi buscar discos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Discos esses que só foram liberados às 11 da manhã e pertencem à matéria que vai abrir o jornal, ao meio-dia.

Por volta de 11h35, Leonardo desce a ladeira da Rua Von Martius em alta velocidade. Deixa a moto em um local proibido e, ainda de capacete, sai correndo em direção ao prédio da emissora. Ao chegar na recepção, pega o crachá e os discos na mochila, passa na roleta e corre até o Tráfego de Mídias, onde os discos são recebidos e seu conteúdo é baixado para o sistema de armazenamento de imagens. Após liberar as mídias, Leonardo respira fundo. Ele está suado e com a camiseta toda molhada. Volta correndo até a calçada para tirar a moto do local proibido e percebe que esqueceu o motor ligado. “Culpa da pressa”, sintetiza. Pergunto se a tensão e a correria o incomodam e recebo um “não” como resposta. Leonardo diz que seu sonho para o futuro é ser operador do jornalismo. Os operadores são, além de motoristas dos carros de reportagem, técnicos em eletrônica. São responsáveis pela montagem da luz e do sistema de áudio – e auxiliares dos cinegrafistas.

Everton Moreira, 27 anos, é operador da Editoria Rio. Franzino, o rapaz de pele morena e sorriso largo é casado há quatro anos e pai de três filhos. Ele foi motoqueiro da Globonews por três anos. A negociação da Brasildoc com o canal pago é diferente do acordo com a Editoria Rio. Na Globonews, a jornada de trabalho é de nove horas e o salário é um pouco maior - por mês, Everton ganhava 2.500 reais. As condições de trabalho, segundo ele, eram mais leves, já que os jornais entram no ar de hora em hora e costumam ter mais entradas ao vivo do que matérias. Depois de se formar no curso de técnico em eletrônica e tirar o registro profissional, Everton foi indicado para o processo seletivo de operador. Foi aprovado e há três meses trabalha na Editoria Rio.

Na tarde ensolarada do dia 8 de outubro, Everton foi escalado para cobrir uma agenda de campanha de Marcelo Crivella, candidato a governador do Rio, em Niterói. É hora do rush e o carro fica parado na Ponte Rio-Niterói. O tempo de travessia, segundo o painel eletrônico sobre a pista, é de 79 minutos. Depois de espreguiçar e bocejar, o operador diz que sente saudade da agilidade do trabalho de motoqueiro: “Eu levaria 12 minutos até Niterói”. Mas prefere ser operador, já que o salário é maior, assim como os benefícios de quem é empregado da TV Globo. Os operadores ganham 2.600 reais mais plano de saúde, vale alimentação e seguro de vida.

Leonardo está terminando o segundo semestre do curso de técnico em eletrônica e diz que não vê a hora conseguir uma vaga de operador na TV. Assim, segundo ele, será possível dar uma vida melhor para a filha. Perguntado se não sentirá saudade da moto, ele diz que não vai precisar deixar as motocicletas. Gargalhando, ele afirma que pode ser operador de motolink, uma motocicleta equipada com dispositivo de geração de sinal via satélite. Leonardo pede licença para ver o RJTV, que já vai entrar no ar. Ele chegou a tempo com os discos e quer ver a matéria que trouxe de Duque de Caxias para a redação. “Podem até achar que não, mas eu ajudo a colocar isso aqui na telinha”, finaliza, rindo.