O engenheiro

by Mayara Pacheco

Dono de seu tempo, Paulo César Rosman fala sobre água, carreira, mercado de trabalho, vida e família

Eram aproximadamente 19h30 quando os membros da família Rosman ocuparam cinco dos dez lugares da mesa que compunha a imponente sala de 60m2 do apartamento de alto padrão em que residem desde o ano 2000. Da janela do imóvel localizado numa das principais vias da zona sul do Rio de Janeiro, a Avenida Borges de Medeiros, o percorrer da visão não demora muito a encontrar a imponente árvore de natal que hoje leva o nome de uma instituição do setor financeiro, instalada na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Sobre um aparador de madeira com tampo de vidro temperado, a empregada doméstica Margô, apelido derivado de Margareth, depositou um bowl e cinco travessas em cima de descansos confeccionados em bambu. Enquantoo primeiro continha uma salada de couve de bruxelas com tomates cortados e cebolas roxas fatiadas, as outrascontinham arroz integral, cenoura cozida, peixe grelhado, frango grelhado e purê de batatas. A variedade não muito calórica revelava um cuidado com a dieta ratificado pelos corpos esbeltos de quase todos da casa, à exceção do jovem João Paulo, cujo porte avantajado pode ser explicado pelas refeições diárias em redes de fastfood num passado recente, quando ainda morava na Califórnia.

A preservação do antigo hábito de reunir a família para o jantar com a televisão desligada – em tempos de lanches rápidos em frente a aparelhos exibindo sua programação noturna – também chama a atenção. O som que se ouvia vinha de um casal de calopsitas cinza, que, vivendo numa gaiola com pedestal, compõe o espaço. A ausência de dimorfismo sexual na espécie levou o macho a ganhar nome de fêmea e vice-versa. Para a sobremesa, Margô,que trajava um uniforme impecavelmente limpo composto por touca, vestido azul de linho com babados brancos e sapatilhas pretas, trouxe outro bowl, dessa vez com pelo menos dez tipos de frutas.

O engenheiro e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Cesar Colonna Rosman estava sentado, ainda com a roupa do trabalho, na cadeira patriarcal e servia-se de caju, figo e uma porção de manga cortada enquanto trocava palavras com a filha Anna, 19, sobre o final do segundo período do curso de engenharia de produção da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Até o intervalo entre o jantar e a sobremesa todos haviam permanecido concentrados, mas o momento das frutas parecia mais descontraído. O pai perguntava à filha sobre as disciplinas cursadas no período e indagou qual teria sido a matéria que a menina mais gostara, ao que ela pensou muito antes de responder que tinha sido desenho técnico; e o fez com uma cara franzina o suficiente para denunciar sua pouca afinidade com a faculdade da área de exatas.

Logo que as jabuticabas compradas pela mãe na feira livre da última quarta-feira sumiram de seu prato, Anna pediu para recolher-se a fim de tomar banho, afinal os longos, pesados e sedosos cabelos negros da jovem morena de bronzeado perfeito demorariam a secar, e já eram quase 20h. Mas um olhar de desaprovação vindo do pai em sua direção suscitou a resposta “ok , eu espero”, denotando um respeito maior ao seu genitor do que o ímpeto de rebeldia em apressar-se para sair da mesa antes que todos finalizassem a refeição.

Assim que chegou à sala para retirar a louça suja, a senhora negra que já presta serviços aos Rosman há sete anos ganhou um agradecimento e o reconhecimento do patrão de que o jantar estava uma delícia. Ela deixou o aposento carregando os pratos com um sorriso.

O hábito de dormir por volta das 22 horas faz parte da rotina da família. Patrícia Auler, 49, olhou para o relógio e calculou que ainda teria cerca de uma hora e meia para ajudar a filha Julia, 14, com os deveres de casa de matemática passados por algum professor da escola alemã Corcovado. Ambas direcionaram-se ao espaçoso escritório e, até que as tarefas terminassem, a mãe não fez questão de substituir a blusa regata de seda azul e o jeans básico que abrigara suas finas coxas durante o dia por alguma roupa mais confortável.

Pode-se notar que Paulo César é uma pessoa simples vivendo em meio a um luxo, que é fruto de um trabalho reconhecido não só no meio acadêmico, como também pelas empresas que o contratam para consultorias e palestras. E é nesse contexto que sua figura já fora escolhida inúmeras vezes para entrevistas em sua área de especialidade. Ainda que afirme que engenharia sempre foi a sua primeira opção de carreira, a escolha da modalidade no quarto período fora uma das mais difíceis dos seus 62 anos de vida. Ele aproveita para fazer uma crítica apaixonada ao fato de jovens entre 16 e 17 anos terem de escolher áreas de formação específicas com tão pouca idade e experiência de vida: “A maioria das pessoas escolhem por impulso, pois na engenharia não há a menor condição de um jovem diferenciar os cursos sem conhecê-los de perto”. Graduado em engenharia civil pela UFRJ, Paulo fora convidado pelo orientador de seu trabalho de conclusão de curso a ser um dos quatro alunos do corpo discente da primeira turma de mestrado em engenharia oceânica na mesma instituição na qual obtivera seu diploma.

Após esse período, o reconhecimento de seu desempenho fez com que fosse logo indicado a compor o corpo, dessa vez docente, da COPPETEC, a Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos da UFRJ, com cerca de 1.300 contratos de convênio em andamento para a prestação de serviços à sociedade, ajudando a alimentar a extensão universitária.

Sua habilidade e articulação o levaram ainda a ministrar aulas em Portugal e prestar serviços no Sri Lanka. Em 1982 submeteu um projeto ao Instituto de Tecnologia de Massachussetts, o MIT, considerada a mais importante instituição de excelência acadêmica em tecnologia e de onde já saíram 70 prêmios Nobel. Paulo diz que sempre teve medo, mas que a coragem vinha na mesma proporção. Sua audácia fez com que o projeto fosse aceito e assim rumou para os Estados Unidos, onde passou cerca de cinco anos, até a obtenção do título de doutor em engenharia costeira.

A titulação e a experiência de Paulo em praias, lagoas, baías, rios e em qualidade de água lhe conferem expertise para avaliar problemas ambientais e também para propor soluções para os mesmos. Ele afirma que se vê muito mais como alguém cuja mente gira em torno da busca por soluções práticas do que alguém que se proponha a conhecer teorias de difícil aplicabilidade. E reconhece que esse talvez seja o motivo que tenha lhe permitido obter sucesso profissional também na área de consultorias e relembra uma frase dita pelo avô que teria norteado sua vida: “O ser humano que não vive para servir não serve para viver”.

É com ar de desapontamento que o professor explica um dos assuntos mais discutidos no Brasil, o problema da carência hídrica em decorrência da falta de chuvas que assola São Paulo. Ele enfatiza que a questão não é restrita ao estado e que afeta também Goiás, Bahia e todos os municípios que dependem do Rio Paraíba do Sul, como Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, e Barra do Piraí, na região sul fluminense, além da Baixada Fluminense. “Esses lugares também vêm sofrendo com a perversidade da baixa dos reservatórios, mas os reflexos disso na mídia quase não são vistos, o que incita o famoso questionamento sobre a importância do evento estar diretamente relacionado a quem ele atinge”, comenta. Outro ponto é o de que o que grande parte da imprensa noticia como falta de água o que, na realidade, é uma baixa considerável nos reservatórios, cujo volume não estaria sendo repostocomo consequência de um fenômeno meteorológico extremamente raro. “A quantidade de chuvas necessárias para repor os reservatórios é muito grande e, por isso, não devemos entender que deva acontecer num curto prazo, pois certamente provocaria tragédias com consequências drásticas e imediatas como deslizamentos e alagamentos. O ideal é pelo menos três ou quatro anos de chuvas médias para que esses reservatórios atinjam os níveis esperados”, explica. Além disso, ele destaca que mudanças climáticas estão sempre ocorrendo, já que não existe constância climática. Hoje, no entanto, as alterações são mais sentidas e se devem não só aos efeitos dos gases estufa, mas aos desmatamentos, às queimadas e à destruição das matas ciliares – florestas ou quaisquer outros tipos de cobertura vegetal nativa que ficam às margens de rios, igarapés, lagos e represas.

Paulo César é o primogênito dos oito filhos homens de dona Lígia, três dos quais são os trigêmeos Marcelo, Renato e Fernando. A mãe, hoje com 82 anos, aceitou fazer cesariana sem anestesia, mesmo com contra-indicação médica, para que os três meninos vingassem. Seis dos oito herdeiros possuem dois diplomas de graduação e as únicas exceções são o caçula de 48 anos, que trabalha como publicitário, e Paulo César. O pai, engenheiro civil, criou os meninos com pouca televisão, muita música – principalmente jazz - e muita leitura. “A minha família tem um nível de educação formal muito alto há muitas gerações. Meu bisavô era médico e meu avô e pai eram engenheiros civis. É claro que todos nós acabamos absorvendo essa sabedoria e cultura, o que foi de muita valia para a nossa formação.”
Um quadro em tons marrons e avermelhados perfeitamente conservado, onde um camponês encostado a uma árvore tocando flauta doce atrai a atenção de alguns animais, é apontado como sendo de autoria da bisavó Zulmira. No hall que dá acesso aos aposentos, um painel com prateleira alberga diversos outros quadros estrategicamente iluminados por spots de luz instalados por indicação de algum arquiteto, dentre eles óleos sobre tela assinados pelas filhas e por ex-alunos.

Paulo César revela estar sempre lendo e levanta-se empolgado em direção ao livro “Ciência sem Dogmas”, de Rupert Sheldrak, que é retirado de cima da mesa de centro para ilustrar o que lhe ocupa o tempo livre no momento. Ele aproveita a ocasião para dizer que “não se apega a coisas físicas, e sim à informação” e que foi por isso que recentemente, antes de uma obra pela qual passou seu apartamento, se desfez de quase todos os seus livros físicos, substituindo-os pelo Kindle, dispositivo portátil produzido pela Amazon e utilizado para leitura de livros digitais. Outros hobbies são noticiários televisivos, programas de ciência e natureza e livros de astrofísica e cosmologia.

A esposa Patrícia, 49, afirma que o marido é muito culto por ser extremamente curioso e procurar ler muito e de tudo. Ela comenta que Paulo está sempre ligado em novos livros e discos, mas que sua preferência musical é o rock progressivo do Yes, e as bandas Genesis, Queen, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rolling Stones e Beatles. Paulo ri, sem acanhamento, e confirma. “Eu tive a sorte de ter nascido num período que me permitiu viver os melhores momentos da música. Quer privilégio maior do que esse?”, pergunta,buscando identificação.

O traje casual composto por jeans Levi’s de cor clara, camisa social de botões de uma marca pouco conhecida e sapatos modelo loafer de couro marrom sem cera revelam uma certa distância da formalidade. Seu filho João, 31, afirma que, apesar de parecer para qualquer um que a família tem uma situação financeira muito acima da média, poucos imaginam que eles moraram por cerca de oito anos num quarto e sala assim que o pai se divorciou da mãe, juntando cada centavo que ganhavam a fim de conseguir reunir recursos em quantidade suficiente para adquirir um imóvel. Mesmo quando conheceu Patrícia, sua segunda namorada, que viria a ser sua segunda mulher, e com a qual é casado há 22 anos, ambos juntaram esforços para reduzir os gastos supérfluos a quase zero: “Enquanto a primeira filha deles ainda era bem pequena, eles viviam nessas condições”, diz João. No ano 2000, após oito anos de aperto, o apartamento da Lagoa foi comprado por um valor cinco vezes inferior ao da avaliação atual.

Ao falar sobre a mãe de suas duas filhas (Anna e Júlia), Paulo exibe um orgulho refletido no brilho dos olhos por ter construído um casamento feliz, ao contrário do que tivera antes com a única mulher com quem havia se relacionado até então. “A Márcia, mãe do meu filho mais velho, teve problemas de adaptação nos Estados Unidos. Quando chegamos lá ela já estava grávida e, depois do nascimento do João, teve uma depressão pós-parto da qual não conseguiu se recuperar, fazendo com que ela retornasse ao Brasil. Infelizmente, aquilo que me alavancou profissionalmente por um lado, me destruiu emocionalmente por outro. Mas ao mesmo tempo, o fim do relacionamento foi o que abriu as portas para que eu conhecesse a Patrícia, com quem tenho uma relação sadia e equilibrada e posso dizer que sou feliz pelo que tenho.”

Com uma vida cheia de conquistas, suas palavras demonstram que sua maior riqueza é o núcleo familiar que construiu, além da manutenção de uma relação de proximidade com irmãos e primos que se concentram propositalmente no mesmo bairro. O apartamento em que vive, por exemplo, foi escolhido por ficar a cerca de 100 metros da casa onde passou a infância e na qual a mãe reside até hoje. O local é o ponto de encontro dos almoços de sábado que costumam se prolongar por toda a tarde. A família também mantém uma chácara, que leva o nome de Desengano, em Leopoldina, Minas Gerais. Reza a lenda que assim teria se sentido o avô ao descobrir que as promissoras terras que acabara de comprar não tinham ouro. A filha mais nova de Paulo, Julia, relembra que, durante a sua infância, adorava ir para lá nos finais de semana e nas férias para encontrar os primos que estão espalhados pelo Brasil. O apreço pela família foi herdado pela caçula que, aos oito anos, redigiu cartas aos parentes e as espalhou pelas paredes da casa na noite daquele Natal. “Tá vendo, é isso que importa na vida”, afirma o pai, mostrando uma das cartas que hoje, emoldurada, já se encontra na estante de nichos como parte da decoração natalina.